Propõe-se que indivíduos predispostos ao desenvolvimento do transtorno do uso de álcool (TUA) apresentem alterações nas funções executivas, resultantes de processos homeostáticos celulares mal adaptativos e circuitos neuronais ativados pelo uso de substâncias. Essas alterações persistem mesmo após a abstinência da substância (Nestler & Aghajanian, 1997). Como um transtorno multifatorial, o TUA tem sido associado a antecedentes familiares de uso de álcool (Khemiri et al., 2020; Peterson et al., 1990; Tarter et al., 1989) e características individuais, como desempenho ruim em testes cognitivos em relação aos controles (Shnitko et al., 2018; Goudriaan et al., 2011), que podem prever consumo excessivo de álcool ou desenvolvimento de TUA.
Essas disfunções executivas se manifestam como comportamentos negativos persistentes que impedem a aprendizagem adaptativa e a redução da ativação da rede de controle executivo, ambos correlacionados com a gravidade do TUA (Mayhugh et al., 2014). A flexibilidade cognitiva, uma função executiva chave, permite o ajuste adaptativo de pensamentos e comportamentos em resposta às demandas ambientais (Uddin, 2021). A flexibilidade cognitiva comprometida está associada à persistência e gravidade do TUA (Stalnaker et al., 2008), embora a recuperação seja observada após a abstinência prolongada (Rourke & Grant, 1999). Assim, a flexibilidade cognitiva pode servir como um biomarcador promissor para tratamento.
McLellan et al. (2000) relatam que 40-60% dos pacientes com TUA recaem dentro do primeiro ano pós-tratamento, enquanto pelo menos 60% recaem dentro de seis meses (Durazzo & Meyerhoff, 2017; Kirshenbaum et al., 2009; Maisto et al., 2006a; Meyerhoff & Durazzo, 2010). Diante desses desafios, técnicas de neuromodulação não invasivas, como a estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr), surgiram como terapias adjuntas aos tratamentos padrão (Diana et al., 2017). Por exemplo, Addolorato et al. (2017) aplicaram EMTr de alta frequência (10 Hz) no córtex pré-frontal dorsolateral (CPFdl) em pacientes com TUA e observaram redução do consumo de álcool e aumento dos dias de abstinência. Da mesma forma, Del Felice et al. (2016) descobriram que a estimulação do CPFdl esquerdo melhorou o controle inibitório, a atenção seletiva e o humor em usuários ativos de álcool.
Estimular o CPFdl, um centro da rede de controle executivo, pode aumentar sua conectividade funcional e melhorar a flexibilidade cognitiva em pacientes com TUA. Esses efeitos estão alinhados com descobertas de que a EMTr fortalece o controle inibitório e a atenção (Del Felice et al., 2016; Diana et al., 2017). Para explorar isso mais a fundo, propomos um estudo longitudinal avaliando características cognitivas/comportamentais em pacientes com TUA que podem contribuir para o desenvolvimento do transtorno. Também avaliaremos os efeitos da EMTr usando ferramentas neuropsicológicas e ressonância magnética para medir mudanças estruturais/funcionais no cérebro.
Este estudo tem como objetivo investigar os efeitos clínicos e cognitivos de curto e longo prazo da EMTr de 10 Hz aplicada ao CPFdl esquerdo em pacientes com TUA abstinentes, juntamente com as mudanças associadas na conectividade neuroestrutural e funcional. Pacientes com TUA abstinentes receberão EMTr diária por quatro semanas. Os desfechos clínicos serão acompanhados por seis meses, com medições de conectividade cognitiva, estrutural e funcional realizadas na linha de base, pós-intervenção (4 semanas) e acompanhamento (6 meses).